Eu nunca caí de um elevador. Mas algo me diz que a sensação de despencar pelos andares em direção ao chão deve ser parecida com ouvir “O Homem de Neandertal”, na voz de Fitti. Natural do Recife, o cantor, compositor e ator passou pelo Sesc Pompeia, em São Paulo, com o show “Fitti canta Ney”, no finalzinho de fevereiro, e prossegue para o Rio e outras cidades.  

A imagem de despencar de um elevador é simbólica pra mim e, nesse caso, a obra do Ney seria o tal meio de transporte: ninguém tem medo de entrar. Já a voz de Fitti, sua imponência em cena e a capacidade de cortar as cordas de qualquer coisa seriam o imprevisível e o chocante que podem acontecer até mesmo em uma viagem de elevador.  

Isso ficou mais forte na abertura do espetáculo, já que eu não conhecia o artista. Vi o show disponível, comprei o ingresso, escutei seu primeiro álbum – o ótimo “Transespacial – e me sentei na poltrona do teatro pronto para ver um cantor interpretando a obra de ícone da MPB. Sem surpresas. 

Não foi bem o que aconteceu. 

Com as luzes apagadas e a banda já no palco, o grito de “eu sou o homem de neandertal” inverteu a direção da queda em um movimento para dentro da história de Ney e de Fitti, como se ambos partissem do mesmo lugar. Dessa maneira, o repertório e a cuidadosa direção artística de Marcus Preto desabaram a perspectiva do público em assistir uma imitação ou a homenagem pura. 

Fitti tem personalidade para cantar “Postal de Amor” e “Flores Astrais”, por exemplo, com a secura de quem entende a vulnerabilidade dos sentimentos mais íntimos ante a fúria do país onde vive. 

Na sua voz, “O patrão nosso de cada dia” e “Tem gente com fome” confirmam a urgência que as canções poetizam, versando com pautas que fazem parte da rotina do povo.  Segundo o jornalista Mauro Ferreira, o álbum desse show deverá ser lançado em breve. 

No meio do show, Fitti fez uma interpretação vigorosa de “Sangue Latino”. Pra mim, ali a queda tinha terminado, “chegamos ao chão”, pensei. Então, o cantor arrancou a parte de cima do figurino para cantar “Mal Necessário”. 

Fitti é um homem trans. O fato deveria ser conhecido pela maioria da plateia, mas, pra mim, foi uma revelação e serviu para transmutar a história que estava sendo contada naquelas canções. 

“Bandido Corazón”, “Seu tipo” e “Dívidas de amor”, composta pelo próprio Ney, além de “Balada do louco” e a inescapável “Homem com H”, mostraram que mais do que só “cantar” Ney Matogrosso, Fitti costurou suas dores, amores e angústias naquilo que lhe cala fundo, como a arte costuma fazer mesmo.

Seja para quem cria, ou para quem consome, esse transporte que a música faz, nos levando para outros andares, vidas ou corpos, é uma grande transmutação. Ninguém sai o mesmo depois de uma sessão no cinema, um show ou de ter apreendido as cores de um quadro em um museu. 

Sim, o artista também pode ser uma forma de arte. “Eu sou a bandeira”, como disse Ney Matogrosso em 2019 ao ser cobrado por mais protagonismo no movimento LGBT e Fitti também estende as suas em cena. Não por acaso, ele encerrou o show coberto pela bandeira do Recife, cantando “Noite Severina”. Mas a arte, em casos únicos como o vivido no Sesc Pompeia, pode ser tão imprevisível e impactante quanto despencar de um elevador. 

Sobrevivi para contar essa história. 

FICHA TÉCNICA

Direção artística: @marcuspreto

Direção musical: @pupillomusica

Banda: @pupillomusica (bateria) | @vicvilandez (baixo) | @yuriqueiroga (guitarra) | @vinifurquim (teclados e synths)

Styling: @helenomanoel

Produção de moda: @guilherme.fracaro | @alex.maced0

Preparação vocal: @lu_assanti

Maquiagem: @fernandissimo

Cabelo: @edu.mpj

Iluminação: @letrovijo

Técnico de P.A.: @geziel.m

Técnico de monitor: @rodrygolink

Roadie: @lalizuno

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